
Luís Pedro Matos Soares
J.A. – No nosso país tem vindo a aumentar a percentagem de desemprego, ano após ano. Solicitamos o vosso parecer sobre este assunto e qual as consequências nessa freguesia?
P.J. – O aumento do desemprego é uma realidade trágica neste país e como não podia deixar de ser também nesta freguesia. Enquanto tivermos governos que em vez de financiarem e apoiarem o emprego, limitam-se a financiar e a apoiar o desemprego, “o nada fazer”. Apoiam-se mais as pessoas do RSI do que as que descontaram uma vida inteira e tiveram o azar de agora se encontrarem numa situação de desemprego ou já estão reformadas. Criou-se uma sociedade subsídio-dependente. Deveria o governo preocupar-se mais em apoiar e incentivar a criação de emprego, nomeadamente diminuindo a taxa social única às entidades que criassem empregos, dado que por um lado receberia menos contribuições mas ao mesmo tempo não pagaria subsídios aos que obtivessem emprego.
Nesta freguesia, que estava quase unicamente dependente da industria têxtil, havia praticamente uma mono industria, as pessoas deslocavam-se para a vila de Manteigas. O encerramento dos têxteis veio criar imensas dificuldades à população, tendo muita dela emigrado, dado que as ofertas existentes eram quase inexistentes.
J.A. – Qual a sua opinião sobre a crise que estamos a viver?
P.J. – É uma crise, na minha opinião, muito grave, mas ao contrário do que dizem, que é motivada por condicionalismos externos, ela é mais provocada pelos políticos que temos, que deveriam pensar mais na população que os elegeu do que nos seus próprios interesses e, mais importante ainda, falar a verdade ao povo, não andar constantemente a enganá-lo. Temos políticos que apenas foram isso mesmo, nunca exerceram uma actividade onde pudessem mostrar as suas reais capacidades e competências e depois é o que se vê. Só pensam e falam no povo nas eleições, dá-lhes jeito.
J.A. – Com o aumento de impostos, quais as consequências poderão advir daí, na sua freguesia?
P.J. – As consequências são sempre muito nefastas, dado que é uma população muito envelhecida e com muito baixos rendimentos, então, tudo o que seja diminuir o rendimento disponível das pessoas reflecte-se de imediato no seu poder de compra.
J.A. – Têm-se vindo a constatar, com alguma frequência, violência nas escolas, tanto com alunos/professores, tanto com alunos/alunos. O que pensa sobre este assunto?
P.J. – Toda esta violência é o resultado da libertinagem que se implantou neste país.
J.A. – Além dos problemas provenientes destas situações, quais as que considera que necessitam de maior intervenção na freguesia?
P.J. – A criação de estruturas que promovam a criação de investimento e consequentemente a criação de postos de trabalho.
J.A. – Quais das perspectivas que tem para o futuro da freguesia?
P.J. – Muito más, os sucessivos governos têm abandonado completamente o interior profundo, não há praticamente investimento que promova a fixação das pessoas. Estas, como não lhe são criadas condições de fixação, e ainda lhe são retiradas as poças que têm, deslocaram-se para outras regiões onde há mais condições de vida. Tem-se promovido a desertificação maciça do interior. Sem condições de sequer manter as poucas resistentes que ainda por cá andam, não se pode agourar um bom futuro por estas paragens.
J.A. – Qual o seu grande projecto que tem para a autarquia?
P.J. – Os grandes projectos são uma zona para implantação de pequenas e médias industrias não poluentes, construção de um edifico multi-funções, para sede da junta de freguesia, biblioteca com espaço público de acesso à internet e armazém/garagem, apoiar a construção de um lar de idosos por parte do Centro Social e Paroquial e requalificar a casa do guarda florestal do Gorgulão e zona envolvente.
J.A. – Qual a situação financeira da autarquia?
P.J. – A situação financeira a nível de contas é boa, pois nós utilizamos o lema de quem não tem dinheiro não tem vícios, não existe passivo, mas tem um grave problema relativamente à falta de receitas próprias, e sem elas não é possível fazer os grandes investimentos necessários.
J.A. – Qual o apoio que a autarquia recebe da Câmara Municipal?
P.J. – O apoio recebido por parte da Câmara Municipal, baseia-se fundamentalmente num protocolo de delegação de competências no âmbito da limpeza das ruas da freguesia e do funcionamento da cantina escolar. Também fornece alguns materiais para pequenas reparações e obras na freguesia. No restante, e à semelhança da generalidade dos executivos deste município. Os executivos da Câmara Municipal, preocupam-se muito mais nos investimentos na sede do concelho, à semelhança do governo central, que se preocupa muito mais em investir onde existem mais votos.
J.A. – Qual o envolvimento da população nos projectos da autarquia?
P.J. – O envolvimento é relativamente pouco, as pessoas têm muito mais preocupação em criticar do que em apoiar e ajudar na resolução de problemas e/ou execução de projectos.
J.A. – Alguma mensagem que queira deixar aos seus fregueses?
P.J. – Para que a aldeia cresça e se desenvolva tem que haver um envolvimento de toda a comunidade, todos nos devemos preocupar em apoiar e incentivar tudo o que seja para melhorar e deixar o espírito derrotista de alguns, este trabalho é de todos e não de uma minoria.
J.A. – Se alguma questão não lhe foi colocada e que queira destacar, esteja à vontade para o fazer.
P.J. – Para quando os nossos governantes, em geral, passarem a tratar todos os portugueses de igual modo, independentemente da sua localização geográfica. O país está a ficar desertificado no interior, é verdade, mas se não foram criadas condições, o êxodo continuará. Terá urgentemente de haver uma discriminação positiva do interior, não podemos tratar de igual modo, realidades que são diferentes.
J.A. – Não querendo entrar na sua privacidade, e, sabendo nós, que a vida de autarca é bastante abrangente e nem sempre compreendida, onde fica a família no meio disto tudo?
P.J. – Na maioria das vezes, a família, fica para segundo plano, com prejuízos graves e muitas das vezes irrecuperáveis.
J.A. – Por último, já visitou o nosso jornal “Jornal das Autarquias” on-line?
P.J. – Já, mas poucas vezes. Dou os parabéns por este trabalho, o divulgar das actividades das freguesias é muito importante, dado que com tostões conseguem fazer o que a maioria dos governantes não consegue fazer com milhões. Porque estão constantemente no terreno a dar a cara, têm conhecimento das necessidades e angústias dos seus fregueses, por isso tentam sempre a melhor e mais imediata resolução para os problemas que surgem.
FONTE: Jornal das Autarquias - N.º 39 - I Série - Castelo Branco e Guarda • Janeiro 2011
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