A geogragia, a meteorologia, os meios humanos e materiais são algumas das variáveis nesta equação.
O primeiro nevão do Outono chegou a muitas aldeias e cidades do Norte do país
e com ele chegaram também os tradicionais encerramentos de estradas. Os
distritos de Vila Real e Viseu foram os mais afectados pela queda de
neve das últimas horas.
Na Serra da Estrela a neve caiu também em força na última noite e
desde quinta-feira há condicionamentos no acesso à Torre. O Maciço
Central está todo cortado ao trânsito.
Afinal, por que é que a Serra da Estrela quase sempre fica com estradas cortadas quando neva?
Além da altitude, a localização da Serra da Estrela ajuda a explicar.
A serra encontra-se a 100 quilómetros do Atlântico, sem qualquer
barreira montanhosa que a proteja “dos ventos húmidos e ciclónicos do
oceano”, refere a Infraestruturas de Portugal.
O factor meteorológico também explica. No Inverno os distritos da
Guarda e Castelo Branco têm frequentemente avisos laranja e amarelo, com
condições de neve muito densa nos pontos mais altos, o que dificulta a
remoção das estradas.
A estrada nacional EN338 está no ponto mais alto da Serra e fica, por
isso, exposta aos fenómenos meteorológicos mais extremos. Segundo a
Infraestruturas de Portugal, a neve, associada a temperaturas muito
baixas, congela ao cair na via, criando uma película de gelo que vai
aumentando mesmo com a colocação de sal-gema.
O vento sopra muitas vezes a 100 quilómetros/hora no ponto mais alto de Portugal Continental.
De quem é a decisão de encerrar as estradas?
O corte das estradas é uma decisão sempre tomada entre a Infraestruturas de Portugal e a Unidade de Montanha da GNR.
Os meios disponíveis são suficientes?
O Centro de Limpeza de Neve (CLN) da Serra da Estrela tem um total de
17 funcionários e 12 viaturas: cinco limpa-neves, duas rotativas, uma
giratória, uma retro-escavadora e três viaturas de apoio.
Além destes meios, na Guarda, que serve a Serra da Estrela, existe
também um espalhador de sal acoplado a uma viatura pesada e uma
retro-escavadora que ajudam a limpar a neve 24 horas por dia.
Neste
distrito a Infraestruturas de Portugal zela por 797 quilómetros de
estradas.
Caso sejam necessários mais meios, são accionados os veículos e trabalhadores que se encontrem noutros distritos.
A (frustrante) guerra contra a neve
Os funcionários que procedem às limpezas muitas vezes limpam a neve e para trás fica logo uma camada de gelo.
Há autarcas da região que dizem mesmo que é tão complicado limpar a
estrada que mesmo um comboio limpa-neves não resolveria a situação.
A Infraestruturas de Portugal esclarece que, além disso, nem sempre
existem condições climatéricas e de segurança para os limpa-neves
trabalharem. A queda de neve, associada a ventos fortes e nevoeiro
intenso, diminui a visibilidade, o condutor deixa ter pontos de
referência para saber onde está a estrada.
Altitude condiciona missão dos limpa-neves
Aos 1.200 metros de altitude, a passagem sucessiva de limpa-neves
permite a circulação normal de viaturas, segundo a Infraestruturas de
Portugal.

Já em condições adversas aos 1.600 metros de altitude não há
garantias de segurança na circulação.
Aos 2.000 metros, na maioria das
vezes, os limpa-neves não conseguem sequer circular.
Além disso, a estrada de acesso à Serra da Estrela funciona em
circuito fechado, sem muitas alternativas que não seja mesmo encerrar
durante os nevões mais fortes.
Prioridades na limpeza da neve
Nem sempre é possível assegurar a abertura imediata da estrada de
ligação à Torre, logo após a paragem do nevão. Isto acontece porque há
previsões de nova queda de neve nas horas seguintes e se opta por não
reabrir ou porque a primeira prioridade é a limpeza das vias que dão
acesso a populações, escolas, hospitais e hotéis, e os meios têm de ser
rentabilizados para o que é mais importante no imediato.
Visitantes descuidados
As autoridades queixam-se também da falta de cuidado e protecção dos
que visitam a Serra da Estrela. Quando surgem as primeiras notícias de
nevões são muitos os que pegam no carro e se deslocam para ver a neve.
De acordo com a GNR e a infraestruturas de Portugal, a maioria dos
automobilistas não leva correntes de neve, nem roupa adequada ou até
mesmo um simples pacote de bolachas, para o caso de alguma coisa não
correr bem e de ficarem parados com o carro na montanha.
Histórico de acidentes no Maciço Central
Entre 2009 e 2015, ocorreram 153 acidentes de viação no Maciço
Central da Serra da Estrela. Nos anos mais recentes, aconteceram 28
acidentes em 2013, 28 em 2014 e oito em 2015. Nos últimos sete anos foi
registada uma vítima mortal e nenhum ferido grave.
Fonte: Radio Renascença